Embyra (Restos)

"Mestiçagem", 2021, Arquivo do artista


Em cartaz entre 4/9 e 5/12, "Embyra" apresenta trabalhos produzidos em diversas plataformas, criados a partir das memórias afetivas e ancestrais da família indígena Tupinaky’ia e Guarani do artista.



O Museu Afro Brasil apresenta, entre os dias 4 de setembro e 5 de dezembro, exposição inédita do artista Andrey Guaianá Zignnatto. "Embyra", ou “restos” na língua Tupi, apresenta um conjunto de sete obras, entre escultura, instalação, video-arte e objetos, criados a partir das memórias afetivas e ancestrais de sua família indígena Tupinaky’ia e Guarani. 

A exposição, na visão do artista, é um esforço para equalizar os elementos de dois universos muitos distintos: o urbano e o dos povos originários, de forma a reconstruir seu universo ancestral indígena. “O Museu Afro Brasil está localizado na região da aldeia de Caiubi, um dos irmãos caciques da minha família ancestral. Essa exposição é uma forma de um Guaianá reabitar esse lugar, mesmo que por um curto período de tempo, e por caminhos poéticos, onde o público é generosamente convidado para também habitar esse Tekoa, território físico, mental e espiritual”, revela Andrey. “Os trabalhos nela expostos podem ser considerados um meio de demarcação indígena tanto do espaço físico da exposição, do circuito das artes visuais, do território subjetivo da arte e do imaginário de cada pessoa do público presente na exposição”.

“Embyra” estará em cartaz no Museu simultaneamente à mostra “Heranças de um Brasil Profundo”, que reúne mais de 500 objetos entre obras de arte e utensílios da cultura material indígena de raiz brasileira. A exposição encerra a trilogia do Museu Afro Brasil que visa iluminar as contribuições artísticas e culturais dos povos que deram origem ao Brasil, que teve início com Africa Africans, em 2015, e foi seguida por Portugal, Portugueses – Arte Contemporânea, em 2016. 

“O Museu Afro Brasil valoriza a arte e cultura indígenas, reconhecendo a grandiosa colaboração dos povos originários na formação da sociedade brasileira”, afirma Emanoel Araujo, diretor curador do Museu Afro Brasil. “A exposição Embyra dialoga com as temáticas abordadas pela instituição e amplia a discussão sobre as nossas origens, sobre a defesa dos indígenas, dessa gente forte e resiliente”.

"Neste mundo, onde as sociedades vivem sob grande tensão, submetidas a violentos processos de sufocamento, quem sabe os conhecimentos indígenas e sua arte tão ignorados pela sociedade urbana possam, de alguma forma, oferecer novas propostas para gerar momentos em que as pessoas encontrem ao menos um lugar para tomar fôlego. Espero que a exposição EMBYRA possa servir como um desses lugares, e compartilhe anga [ânimo - alma] com o público que por ela passar", conclui Andrey.


Sobre Andrey Guaianá Zignnatto
Eu sou artista descendente por pai dos povos Tupinaky’ia Guaianás que habitaram os territórios onde hoje é chamado São Paulo, etnia indígena que sofreu apagamento total de seu universo ancestral. O que restou deste povo e seu universo são alguns relatos em textos produzidos por seus colonizadores. Por parte de minha mãe, descendo dos Guarani Mby’a, povo que me tem auxiliado num processo pessoal de retomada como aba [homem] indígena. Apoiado sobre essas poucas memórias que me sobram como herança, na arte e suas muitas potências, me esforço para desenvolver um processo de reflorestamento do universo ancestral de minha família, esforço que se inicia no território de meu próprio pensamento e espírito. A reconstrução desse Tekoa* toma forma em cada trabalho produzido durante estas pesquisas e pode se expandir para muitas dimensões durante cada exposição, na experiência do contato entre o público e cada trabalho.

*TEKOA literalmente, significa o lugar do modo de ser guarani, sendo esta categoria modo de ser (tekó) entendida como um conjunto de preceitos para a vida, em consonância com os regramentos cosmológicos herdados pelos antigos guaranis.